Transposição Musical

Ou simplesmente transposição, se refere ao fato de haver necessidade de modificar a altura de uma nota, um grupo de notas  ou até toda a música por um intervalo constante.

Isso é feito sempre que uma partitura, cifra ou tablatura esteja diferente da voz ou do instrumento tocado e o ajuste tem de ser feito, possibilitando uma reprodução harmoniosa e confortável.

Método de transposição

Toda escala musical ocidental possui as seguintes notas:

do     do#     re     re#      mi     fa      fa#    sol     sol#     la    la#     si    do

C       C#       D      D#      E       F       F#      G       G#      A     A#     B     C

Por exemplo: Para transpormos a nota re, em cinco semitons ou dois tons e meio busca-se a nota localizada cinco posições à direita.

                               re      1         2       3        4        5

          C       C#       D      D#      E       F       F#      G       G#      A     A#     B     C

Onde, então, encontramos a nota localizada 5 semitons acima da nota re que é a nota sol.

Em inúmeros exemplos práticos, bastante comuns, por sinal, encontramos músicas escritas em tonalidades ou com trechos em que hajam notas que o cantor ou o instrumentista não consegue reproduzir.   É um exemplo clássico de necessidade de transpor a nota, o trecho ou toda a música da mesma forma que vimos acima.

É importante salientar que sempre que houver a transposição de tonalidade, seja de uma nota, de um grupo ou de toda a música, a tonalidade do que for alterado é alterada para todos os que estiverem participando da interpretação.

Instrumento transpositor

É todo e qualquer instrumento musical que, por alguma razão, tem suas notas anotadas na partitura em altura diferente daquela que realmente soa. Os instrumentos cujos sons correspondem às notas escritas são chamados de não transpositores.

Para evitar dúvidas, no início da partitura, a tonalidade do instrumento deve ser anotada, ou seja, a nota que realmente soa quando se escreve um Dó na partitura.  Por exemplo, em uma partitura escrita para clarinete em Sib, a nota que o músico toca ao ler um Do, soa como Sib.  Assim, ao criar um arranjo que inclua um clarinete em Sib, todas as notas na partitura devem ser escritas exatamente um tom acima daquele que realmente soa.

Há inúmeras razões para que um instrumento seja transpositor.  Alguns instrumentos como o clarinete e o saxofone tem o que se chama de família, ou seja, instrumentos de tamanhos diferentes.  Estes instrumentos são transpositores para que os músicos possam tocar qualquer um dos instrumentos da mesma família, sem que precise aprender diversas digitações.  Por exemplo, a nota escrita como Do no saxofone alto e no saxofone tenor tem a mesma posição de digitação, mas o som produzido pelo sax alto é mais agudo que o do sax tenor.  O mesmo ocorre com diversos instrumentos de metais que possuem três válvulas ou pistos em configuração semelhante.  Em outros casos, a transposição limita-se a aumentar ou diminuir uma oitava na escrita, para evitar a mudança de clave ou o uso excessivo de linhas suplementares ao longo da música.

As músicas são compostas ou arranjadas para que todos os instrumentos soem na mesma tonalidade.  Por isso, durante o processo de composição ou arranjo, é a nota que soa que é considerada.   A transposição é realizada somente ao se transcrever a partitura para cada instrumento.   Como a relação intervalar da escala também deve ser preservada, a armadura de clave também é transposta para refletir a transposição.  Por exemplo, uma composição em Do maior será anotada como se fosse Re maior na partitura de um trompete em Sib, e como Sol maior na partitura de uma trompa em Fa.  Apesar disso, toda a peça soará na tonalidade correta.  É apenas a escrita de cada instrumento que sofre transposição.

Transposição de oitavas

Para muitos instrumentos, cujas extensões são extremamente altas ou baixas, transpõem-se uma ou duas oitavas abaixo ou acima, apenas e tão somente para facilitar a escrita na partitura e por conseguinte a leitura, evitando mudanças de clave ou o uso de linhas suplementares.  Embora estes possam ser, tecnicamente, instrumentos transpositores, eles muitas vezes não são considerados como tal, porque a transposição em oitavas não necessita de alteração de tonalidade e a nota que soa tem o mesmo nome da nota escrita.  Um exemplo de instrumento transpositor de oitavas é o contrabaixo, que é pautado uma oitava acima do som real.

Outras transposições

O uso mais frequente de transposições é aquele em que há famílias de instrumentos cuja construção e forma são iguais, diferenciando apenas no tamanho.  Os maiores soam mais graves e os menores, mais agudos.  Como o mesmo músico pode tocar todos os instrumentos da mesma família, é desejável que todos tenham a mesma digitação, para que não seja necessário aprender posições diferentes de chaves ou válvulas, para cada instrumento.

Diz-se desses instrumentos que têm uma certa tonalidade, em referência à nota fundamental da escala, que soa quando um Do é escrito na partitura. Por exemplo: um clarinete em Sib, ou uma trompa em Fa.  Quando um músico lê um Do na partitura e toca um clarinete em Sib, o som produzido será um som de Sib, enquanto um trompista, tocando uma trompa em Fa, vai ler a mesma nota e produzir um som de Fa.

Um exemplo de família de instrumentos com diferentes transposições é a das flautas. Uma flauta transversal comum possui uma extensão que vai do Do central do piano até três oitavas acima.  A flauta alto é um instrumento muito similar, tocada com a mesma digitação, mas sua extensão se inicia no Sol abaixo do Do central.  Com a mesma digitação que produziria um Do na flauta, produz um Sol na flauta alto (um intervalo de uma quarta justa abaixo).  Se o instrumento não fosse transpositor, um flautista teria que aprender uma nova digitação para tocar a flauta alto.  Em vez disso, a música é transposta diretamente na partitura e escrita uma quarta acima. Dessa forma, o músico pode tocar como se o Sol, que soa, fosse um Do e tocar com a mesma digitação.

Várias outras famílias de instrumentos seguem a mesma lógica:

  • a família do clarinete:
    – clarinete soprano em Sib, e em La;
    – clarinete sopranino em Mib, e em Re;
    – clarinete alto em Mib;
    – clarone em Fa;
    – clarinete-baixo em Sib e La;
    – clarinete contralto em Mib, e em Sib.
  • Alguns membros da família do oboé (o oboé propriamente não é transpositor, mas o são os:
    – corne inglês em Fa e o
    – oboé d´amore em La.
  • A família do saxofone:
    – sopranino em Mib;
    – soprano em Sib;
    – alto em Mib;
    – tenor em Sib e em Do, chamado especificamente de Melody;
    – barítono em Mib, para mencionar apenas os mais comumente encontrados.
  • As gaitas diatônicas, que se existem em qualquer das doze tonalidades e, eventualmente, uma oitava abaixo ou acima.
  • A maior parte dos instrumentos de metal, que compartilham o mesmo dedilhado de chaves ou pistos.

A trompa é um caso particularmente interessante. Antes que as chaves se tornassem populares no século XX, as trompas só podiam tocar as notas da série harmônica de uma determinada altura fundamental.  Para tocar músicas em tonalidades diferentes, uma ou mais seções de tubo eram introduzidas no tudel (a seção inicial do tubo, onde é encaixado o bocal). Isso encurtava ou alongava o instrumento.  Assim, toda a música era escrita, como se a trompa fosse em Do e os tubos de extensão podiam transpor a trompa para qualquer tonalidade.  Mudar as extensões era um processo demorado e, por isso, só era usado entre os movimentos ou entre canções diferentes.  A introdução das válvulas evita a utilização de tubos de extensão e, hoje, a trompa é um instrumento cromático.  No entanto, muitos compositores, como Richard Wagner (1813 a 1883) continuaram escrevendo, como se houvesse trompas em múltiplas tonalidades.  Mesmo depois que se padronizou a transposição em Fa, muitos compositores não eram consistentes se desejavam que a trompa lesse uma quinta justa abaixo ou uma quarta justa acima.  Por todas estas razões, é comum encontrar ainda hoje partituras escritas para trompa em Do, Re, Mib e Sol, entre outras.  Como a trompa moderna é afinada em Fa (ou dupla afinação em Fa e Sib), os trompistas precisam, na prática, transpor mentalmente durante a execução ou transcrever todas as partituras que não estejam em Fa ou Sib.

Algumas famílias possuem instrumentos com a fundamental diferente de Do, mas cuja escrita não é nunca transposta.  O trombone, por exemplo, é construído em Sib, mas é sempre escrito em Do.  Também as flautas doces possuem diversos instrumentos com a fundamental em Do ou Fa.  As partituras são sempre escritas em Do e o flautista aprende a digitação necessária para ler a partitura em instrumentos com digitação em Do ou digitação em Fa.  É fácil passar de um instrumento em Do para outro em Do, ou de um em Fa para outro em Fa, mas é preciso aprender a nova digitação caso se deseje passar de um instrumento em Do para um outro em Fa, ou vice-versa.

Razões para usar instrumentos transpositores

À primeira vista, pode parecer pouco natural utilizar instrumentos transpositores.  Um clarinete em Do é apenas um pouco mais curto do que um em Sib.  Não há nenhuma razão econômica para escolher entre um e outro.  Porque usar, então, um instrumento em Sib se isso aumenta o trabalho do arranjador ou do músico?

Antes da adoção das escalas temperadas (aproximadamente na época de Bach), todos os instrumentos de sopro deviam ser construídos especificamente para a tonalidade em que tocavam.  Se isso não fosse feito, ocorriam desafinações em diversas notas da escala.  É por isso que existiam famílias de instrumentos em várias tonalidades e se usavam os tubos extensores nas trompas.

Uma vez que a escala temperada foi adotada, isso deixou de ser necessário, pois podiam ser construídos instrumentos que se afinassem bem em diversas tonalidades.  No entanto, notou-se que alguns instrumentos soam melhor numa tonalidade do que noutras.   Um exemplo disso é o clarinete em Do, que possui tem uma sonoridade desagradável, assim como as versões em Re e Mib, e, rapidamente, caíram em desuso.  Como o clarinete em Sib soa melhor, ele foi adotado como padrão, com poucas exceções.  O mesmo acontece com o trompete em Sib, a trompa em Fa e o trombone em Sib.

Notação na partitura do regente

Na partitura do Regente ou Maestro, a música não precisa ser transposta, uma vez que ele não precisa conhecer os aspectos técnicos de execução de cada instrumento, no momento da execução.  No entanto, é frequente a notação transposta na partitura orquestral.  Esta prática facilita a comunicação verbal entre o maestro e os músicos durante os ensaios, uma vez que ambos leem a mesma nota e ninguém precisa transpor no momento da fala.  Algumas editoras musicais, principalmente na música contemporânea, escrevem na partitura do maestro a nota que soa (no máximo com transposições de oitava).  A justificativa dessa prática é que fica mais fácil para o condutor reconhecer a relação harmônica entre as partes se as notas forem escritas como soam.

Fonte: Wikipedia